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Pesquisadores mapeiam custos de produção de ovinos no Brasil
Expobahia 03 a 09 de abril de 2017
Expoconquista – 27 de março a 02 de abril 2017
Caracterização dos sistemas produtivos de ovinos de leite no Brasil
Este trabalho é parte da tese de doutorado em andamento de Anderson Elias Bianchi, da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, Paraná, Brasil.
A ovinocultura leiteira, atividade bem estruturada em países Europeus e Asiáticos, é um tanto recente no Brasil. Alguns dados demonstram que até a década de 80 existiam no país apenas algumas criações de ovinos da raça Bergamácia para a produção de leite. No ano de 1984, houve pequena importação de material genético da raça Lacaune, de origem francesa, para Minas Gerais, mas por algum motivo a atividade não se expandiu e a genética não foi multiplicada.
No ano de 1992, produtores gaúchos fizeram importações de material genético também da raça Lacaune, criando dois polos no Rio Grande do Sul, um na região de Porto Alegre e outro na Serra Gaúcha. Com essa genética trazida em algumas importações, originou-se a maioria dos rebanhos existentes até hoje no Brasil.
Anos mais tarde, de 2006 a 2009, foram introduzidos no Brasil animais, embriões e sêmen da raça East Friesian, de origem alemã, tendo sido esse material importado do Uruguai, Argentina, Nova Zelândia e Austrália. A raça Lacaune passou por ampla janela sem renovação do material genético, em função da interrupção das importações por questões sanitárias e somente no ano de 2012 alguns produtores conseguiram trazer novamente uma quantidade significativa de sêmen da raça Lacaune, com boa procedência genética.
Assim, o rebanho comercial de ovinos de leite está sendo trabalhado no Brasil apenas a 24 anos, sendo ainda a atividade incipiente quando comparada a outras atividades produtivas. Há também carência de informações técnicas oficiais e reais da atual situação da ovinocultura leiteira no Brasil e essa falta de dados técnicos e econômicos é um ponto crítico na atividade, tanto para produtores já estabelecidos, como para novos interessados.
Nesse mesmo sentido, considerando que a produção de ovinos pode ser uma importante opção para as pequenas e médias propriedades, o conhecimento de sua real dimensão e seu potencial econômico seria importante para uma possível inclusão em políticas públicas de desenvolvimento regional, principalmente nas regiões Sul e no Nordeste. Nesse sentido, o estudo de viabilidade econômica da produção e da industrialização é de extrema importância para identificar os gargalos no processo produtivo e a logística de distribuição e comercialização desses produtos.
Considerando esse contexto, a ABCOL (Associação Brasileira de Criadores de Ovinos de leite) em parceria com o LAPOC/UFPR está realizando um estudo a fim de caracterizar os sistemas produtivos de ovinos de leite em diferentes regiões do Brasil e discutir os fatores de produção mais importantes nas propriedades. O trabalho foi desenvolvido por meio de acompanhamento técnico e de coleta de dados durante todo o ano de 2015 em propriedades de todos os Estados brasileiros, onde há relatos da atividade. Esses dados foram coletados de forma presencial, sendo acompanhada pelo proprietário ou responsável.
Na Tabela 1 são apresentados os dados referentes a número de produtores, número de matrizes nos rebanhos, número de laticínios e produção anual de leite em cada um dos sete Estados, nos quais há relato da produção comercial de ovinos leiteiros.
Tabela 1: Distribuição dos rebanhos de ovinos leiteiros no Brasil.
O Estado do Rio Grande do Sul, pioneiro na produção comercial de ovinos leiteiros possui o maior número de rebanhos especializados, sendo sete rebanhos no total. A maioria desses produtores estão ligados à empresa comercial Casa da Ovelha, que além de ter produção própria, ainda realiza a compra do leite dos produtores da região, possuindo o segundo maior plantel de matrizes, em torno de 2000 animais.
O Estado também possui a segunda maior produção de leite do Brasil, com 270 mil litros por ano, ficando somente atrás do Estado de Santa Catarina que possui a maior produção, em torno de 315 mil litros por ano e o maior rebanho, em torno de 2400 matrizes. Santa Catarina possui apenas quatro produtores, sendo que dois deles possuem rebanho superior a 600 matrizes, sendo o Estado com o maior rebanho, mesmo tendo menor número de produtores.
No Estado de Minas Gerais, nos últimos anos, tem crescido bastante o plantel de animais especializados e o número de produtores. O Estado é o terceiro em rebanho com 950 matrizes e produção de 130 mil litros de leite por ano, mas com ótimas perspectivas de crescimento impulsionado pelo mercado consumidor crescente. A tradição leiteira e queijeira de Minas, também contribui para o potencial do Estado como produtor de leite e lácteos de ovelha.
O Paraná possui dois rebanhos e uma produção de 15 mil litros de leite por ano, sendo que uma particularidade das propriedades desse Estado é que, além da produção de leite, utilizam também a produção de animais de corte para viabilizar a atividade.
Os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e o Distrito Federal possuem juntos 11 rebanhos, em torno de 1050 matrizes leiteiras e produção anual de 110 mil litros. A particularidade dos três Estados é possuírem rebanhos pequenos, mas em crescimento, seguindo a expansão do mercado consumidor, que foi a peça chave que impulsionou os produtores a ingressarem na atividade. Esses Estados continuam tendo o maior mercado consumidor, totalmente favorável a produtos à base de leite de ovelha, o principal fator que atrai os produtores a ingressarem na atividade.
Nota-se, portanto, que a produção comercial de ovinos de leite teve início no Estado do Rio Grande do Sul há quase 25 anos, como mencionado anteriormente, e atualmente ainda mantém a maior concentração de rebanhos; porém, pode-se dizer que nesse período a atividade também se expandiu consideravelmente em outros Estados brasileiros.
Com relação aos laticínios, a Tabela 1 mostra que, de forma geral, o número de unidades de processamento está diretamente relacionado ao número de rebanhos nos Estados, indicando que a produção está totalmente atrelada ao beneficiamento, e que a unidade de processamento do leite geralmente fica localizada na propriedade produtora.
Na Tabela 2, pode-se verificar que, dentre 28 propriedades, 21 delas beneficiam o leite na mesma, com volumes variando de 2 mil até 90 mil litros de leite por ano. O volume de leite trabalhado é bastante variado entre as propriedades, desde produções totalmente artesanais de 2 mil litros de leite por ano até o beneficiamento de 90 mil litros, podendo ser este considerado um laticínio de grande porte, se tratando de leite ovino, e nas atuais condições de produção do país.
Tabela 2: Destino do leite das propriedades produtoras de ovinos de leite em diferentes regiões do Brasil.
Entre as 28 propriedades, seis realizam a venda do leite in natura e apenas uma delas beneficia quantidade parcial na propriedade e comercializa o excedente para outra unidade de beneficiamento. O volume médio de produção nas propriedades que realizam a venda do leite é maior que o das propriedades que realizam o beneficiamento, mas também se encontram volumes bem distintos, havendo propriedades com 15 mil litros por ano até propriedades de 220 mil litros por ano.
Outro ponto importante é entender a logística utilizada pelos produtores que comercializam o leite para outros estabelecimentos, muitas vezes distantes da propriedade. Produtores maiores, ou que estão próximos ao laticínio fazem a estocagem e o transporte do mesmo resfriado entre 2 e 4 ºC, tendo o cuidado para que esse leite seja entregue ao laticínio em até 48 horas após a ordenha. Produtores menores, ou que estão distantes do laticínio, devido à dificuldade de fazer o transporte a cada 48 h, realizam o congelamento do leite, e, quando há um volume significativo, fazem o transporte até a unidade de beneficiamento. É importante salientar que, no caso do leite ovino, por este ter características físico-químicas diferentes das do leite bovino, o congelamento permite posterior processamento em queijos, iogurtes e outros produtos, apenas tendo uma redução de 3 a 5 % no rendimento.
Com relação ao sistema de inspeção utilizado nos 24 estabelecimentos que processam leite ovino, quatro possuem o registro no Sistema de Inspeção Federal (SIF), dois possuem registro no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI-POA), cinco possuem registro no Sistema de Inspeção Estadual (SIE), quatro possuem registro no Sistema de Inspeção Municipal (SIM) e nove deles são considerados artesanais e estão em processo de adequação para serem inspecionados pelo sistema cabível.
Alguns produtores relatam dificuldades em adequar seus estabelecimentos a algum dos sistemas citados acima (SIF, SISBI, SIE) em função do baixo volume de leite produzido e à falta de legislação específica, inexistência de parâmetros físico-químicos e sanitários para o leite de ovelha, e pela própria desinformação dos agentes de inspeção. Mesmo assim a produção é rentável, dado o valor que pode ser agregado aos produtos.
Com relação às características das propriedades produtoras de ovinos de leite, encontra-se um fator de extrema importância, que é a área de terra destinada à produção. Na Tabela 3 estão relacionados o número de propriedades, número de matrizes e a produção média de leite no ano dos estabelecimentos alocados por área. Podemos ver que mais de 60 % das propriedades produtoras de ovinos de leite no Brasil possuem menos que 10 ha, rebanho médio de até 120 matrizes e produção anual em torno de 15 mil litros de leite. Esses dados demonstram que é uma atividade que pode ser praticada e viabilizada em pequenas propriedades, em função do valor agregado presente no leite e nos demais produtos, propriedades essas que muitas vezes seriam tecnicamente inviáveis para produzir com outros ruminantes.
Tabela 3: Característica fundiária das propriedades produtoras de ovinos de leite no Brasil.
Pode-se ver que há poucas propriedades com mais de 50 ha, com rebanhos acima de 250 matrizes e produção de leite em maior volume, mas em geral a atividade é praticada em propriedades que diversificam suas produções, sendo a ovelha leiteira uma das atividades.
Na Figura 1 encontra-se a ilustração dos rebanhos classificados por número de matrizes, variando de propriedades menores com até 45 matrizes e propriedades consideradas grandes, com porte de produção de países europeus e asiáticos de maior tradição na atividade, com 1500 matrizes.
Figura 1. Rebanho de matrizes de ovinos de leite por propriedade.
Com relação às raças, como citado acima, o rebanho ovino leiteiro atual tem sua base na raça Lacaune, mas nos últimos 10 anos também houve a introdução de material genético de animais da raça East Friesian. Nas propriedades produtoras de leite ovino (Figura 2), a raça Lacaune é encontrada em 27 delas, sendo que em 21 cria-se exclusivamente Lacaune e em outras 6 encontram-se rebanhos Lacaune e rebanhos East Friesian. Somente em uma propriedade estudada encontram-se apenas animais da raça East Friesian.
Figura 2. Raças de ovinos de leite presentes nas propriedades no Brasil.
Devemos salientar que em algumas das propriedades também há animais da raça Bergamácia e ovelhas da raça Santa Inês puras, ou cruzadas com Lacaune e East Friesian. Possivelmente encontram-se pelo Brasil outros rebanhos dessas raças, mas que não estão ainda sendo ordenhadas, e outros que ordenham experimentalmente.
Conclui-se que a ovinocultura de leite, apesar de atividade recente no Brasil, apresentou expressivo crescimento nos últimos anos, impulsionado pela procura por atividades rentáveis por parte do produtor e busca por alimentos de qualidade e saudáveis pelos consumidores. Porém, a necessidade de dados e estudos técnicos-científicos é de extrema importância para auxiliar os produtores que estão na atividade e para novos que irão iniciar. Assim pode-se criar uma base de informações e dados nacionais, reduzindo a necessidade de se usar dados adaptados de outras espécies ou de ovelhas leiteiras em outros países.
Agradecimentos
Agradecimento a ABCOL e aos produtores que fazem parte dessa associação e contribuíram com os dados de suas propriedades para o presente estudo.
Leite de ovelha: características tecnológicas e potenciais benefícios para a saúde
Os humanos evoluíram em estreito contato com a natureza, sendo o leite a primeira fonte de alimento dessa espécie ao nascer. Durante milhares de anos, o leite rico em nutrientes, como fonte de alimento, era unicamente materno e só veio a ser consumido pelo homem após idade de amamentação com a domesticação dos animais, primeiramente as ovelhas e as cabras há aproximadamente 13 mil anos, seguido da domesticação das vacas quatro mil anos depois. Desde então o leite tornou-se um alimento indispensável para o homem.
O valor nutritivo do leite de ovelha é superior quando comparado aos leites caprino e bovino, apresentando maior teor proteico, lipídico, minerais e vitaminas essenciais para a saúde humana. Este leite apresenta três vezes mais proteínas em relação ao leite de cabra e de vaca, sendo aquelas consideradas proteínas de alto valor biológico contribuindo para uma melhor digestibilidade. Outra característica é a conformação estrutural e a quantidade de micelas de caseína e suas subunidades, que são assim como o leite caprino, menores que as do leite bovino, proporcionando menor sensibilização às pessoas alérgicas.
Estudos sugerem que o leite de ovelha pode ser considerado o substituto ideal do leite bovino para pessoas alérgicas ao leite bovino devido ao elevado teor dos principais componentes do leite e minerais. Entretanto, foi verificado que anticorpos IgE de pessoas alérgicas reconhecem as αS1-caseína, αS2-caseína e β-caseína de leite ovino e caprino, mas caseínas do leite bovino são raramente ou não reconhecidas. Além disso, os polimorfismos genéticos das proteínas do leite estão associados com os parâmetros quantitativos e qualitativos e desempenham um papel importante na indução de diferentes graus de reação alérgica.
A coloração do leite de ovelha é intensamente branca e homogênea, o que o difere do leite de vaca, pois essa característica está associada à ausência de β-caroteno pigmento precursor do retinol (vitamina A) impedindo que o leite tenha coloração amarelada como no caso do leite bovino. No leite ovino, o β-caroteno apresenta-se na forma convertida da vitamina A que não possui coloração amarelada e essa característica possibilita a produção de diferentes variedades de queijo.
A caseína no leite de ovelha compõe 80% do total de proteínas do leite dos ruminantes, enquanto que está presente em 50% da composição proteica do leite equino e em menor porcentagem no leite humano. A caseína do leite de ruminantes difere com relação às características de tamanho hidratação e mineralização. As micelas de caseína do leite de ovelha possuem maior mineralização e menor hidratação, sendo mais estáveis ao aquecimento quando comparadas à micela de caseína do leite de vaca. Outra importante característica refere-se à conformação molecular e sequencial de aminoácidos com impacto sobre sua digestibilidade, qualidade nutricional e termoestabilidade proteica.
As proteínas do leite de ovelha consistem em elevada quantidade de caseínas (resistente ao calor) e proteínas do soro (sensível ao calor) responsáveis pela textura e viscosidade de iogurtes. Tecnologicamente, elas têm propriedades únicas que permitem a fácil conversão do leite em iogurte e queijos, não sendo necessária a adição de sólidos na produção do iogurte, como leite em pó, ou concentração dos sólidos do leite por tecnologia de membrana. Estudos com variantes da caseína do leite ovino representam uma abordagem eficaz para identificar a associação de características de importância econômica e melhorar raças para a produção de proteína do leite específica.
As características da caseína no leite de ovelha são particularmente interessantes devido ao número elevado de polimorfismo, alterando a expressão de genes e influenciando o processamento de queijos. Em adição, enzimas presente no leite de ovelha possuem atividade proteolítica ou lipolítica (quebra de proteínas e lipídios). Elas auxiliam na maturação de queijos – resultando em compostos de aroma e sabor típicos, tornando-os únicos em suas características.
O sabor e o aroma do leite de ovelha são suaves e adocicados além de possuir uma textura cremosa devido aos pequenos glóbulos de gordura que apresentam tamanhos menores que 3,5 µm. Esta peculiaridade no tamanho dos glóbulos gordurosos do leite ovino propicia que esse seja digerido mais facilmente. O leite ovino apresenta também altas concentrações de ácidos graxos poli-insaturados com benefícios à saúde como isômeros de ácido linoleico conjugado (CLA) presentes em maior concentração nesta matriz comparado ao leite bovino que são o cis-9 trans-11 e o trans-10 cis-12, responsáveis por ações anticarcinogênica, antiaterogênico e antiobesidade.
Ainda com relação aos lipídios do leite de ovelha, as lipases têm um papel importante na produção de leite na glândula mamária. As lipases naturais do leite catalisam e hidrolisam os triglicerídeos, produzindo ácidos graxos livres (AGL). A atividade das lipases, em leite ovino, é cerca de um décimo das do leite bovino. Além disso, o padrão de hidrólise da gordura de leite por ovinos apresenta maior taxa em relação aos triglicerídeos – contendo ácidos graxos de cadeia média em relação aos ácidos graxos de cadeia longa. Os níveis de AGL em queijos de leite ovino são o resultado do processo lipolítico que ocorre durante o período de maturação.
Alguns produtos lácteos derivados usando como matéria-prima o leite de ovelha – como iogurte grego e queijos – foram descritos como possuindo peptídeos inibidores da enzima conversora da angiotensina (ECA), sendo a maioria derivada da subunidade β-caseína. Também, alguns peptídeos derivados da κ-caseína, resultante da hidrólise de leite ovino pela pepsina, tripsina e quimotripsina, exercem atividade antioxidante. Em queijos tradicionais derivados de ovelha, como o Scamorza, foram verificados diversos peptídeos com ação inibidora da ECA e ação antibacteriana.
Nesse contexto, o leite de ovelha é uma rica fonte de nutrientes e seu principal uso é na produção de queijos devido ao elevado conteúdo de extrato seco total, que contribui com alto rendimento da massa. Todavia, esta matéria-prima permanece inexplorada pela indústria de laticínios com uma visão de alimento funcional, visto que o leite e seus derivados são reconhecidamente ótimos carreadores de fibras prebióticas e bactérias probióticas – que trazem benefícios ao consumidor favorecendo saúde e bem-estar.
Nesse contexto, o leite de ovelha apresenta-se como um alimento de grande potencial e uma valiosa alternativa para a indústria de laticínios – que pode aumentar a diversidade de produtos oferecidos ao consumidor.
Referências bibliográficas
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Comportamento ingestivo de ovinos em pastagens pelo método de monitoramento contínuo de bocados
A ovinocultura tem ganhado cada vez mais espaço dentro da atividade pecuária nacional, porque o aumento do consumo de carne ovina e seus produtos derivados têm crescido entre a população, o que serve de incentivo aos produtores inseridos neste meio.
Neste cenário, destacam-se os sistemas de produção a pasto, que são amplamente utilizados no Brasil, mas que se apresentam sujeitos a enorme diversidade ambiental, de disponibilidade de alimentos e de sistemas produtivos conforme as diferentes regiões dentro do território nacional. Mas, o que faz com que estes modelos de produção em pastagens consigam ser bem sucedidos dentro desta ampla variedade de ecossistemas que temos no país?
Uma das possíveis respostas está no hábito alimentar da espécie ovina e na sua capacidade de adaptação em resposta às variações ambientais. É fato que, para o sucesso da ovinocultura, assim como para muitas outras atividades, é necessário que o consumo de alimentos pelos animais seja otimizado e possa refletir em boa produtividade. Para tanto, é fundamental que sejam conhecidos e corretamente interpretados os hábitos de consumo desta espécie.
Na produção em pastagem, o conhecimento a respeito da seleção de alimentos por herbívoros, permite adequar a oferta de forragem de acordo com as preferências de cada espécie e categoria animal. Neste sentido, avaliar padrões de consumo de ruminantes a pasto e as variáveis que interferem nesse consumo, é de grande importância para tomadas de decisões sobre o manejo adequado das pastagens, tornando a produção mais eficiente (Barros et al., 2010).
Parte-se do princípio de que o animal tem a capacidade de regular seu consumo, de acordo com suas exigências nutricionais e que, quando há opção de escolha, irá selecionar os alimentos que melhor atendam suas necessidades. Portanto, neste caso, espera-se que o ganho de peso, ou a produção leiteira, reflitam essa situação favorável em melhora na resposta animal.
Mesmo em condições de restrição alimentar, os ovinos podem apresentar alterações de comportamento ingestivo visando o aumento compensatório do consumo de forragem (Barbosa et al., 2010). Esta alteração de resposta do comportamento ingestivo dos animais, em diferentes situações de oferta de forragem, é representativa da interação planta-animal. Além disso, de acordo com Bonnet et al. (2013), permitir que os herbívoros, em sistemas de produção, expressem sua característica natural de selecionar espécies em ambientes heterogêneos, pode ser uma forma de conservação da biodiversidade em pastagens.
Contudo, quantificar e qualificar o consumo de ruminantes em pastagens não é tarefa fácil. Geralmente os estudos a este respeito são onerosos e de difícil execução. Neste contexto, métodos de observação direta de consumo em diferentes escalas de tempo (em segundos ou dias) tornam-se mais adequadas para a visualização da interação entre animal-planta, em ambientes com grande diversidade de espécies.
A técnica de monitoramento contínuo de bocados permite a obtenção de informações centrais e fundamentais do processo de forrageamento, de tal forma que nenhuma outra técnica consegue. A partir dela, é possível realizar a estimativa contínua da massa de bocados, taxa de bocados, taxa de ingestão instantânea, a identificação de espécies e partes de plantas selecionadas em relação às características da vegetação local, bem como a dinâmica do pastejo em ambientes simples e complexos (Bonnet et al., 2015).
Esta técnica, utilizada para ovinos, foi descrita com base em estudos de observação direta de outras espécies animais, que já estavam sendo realizados ao longo de trinta anos (Agreil & Mauret, 2004). A identificação feita desta forma permite registrar a ordem temporal de bocados realizados por um indivíduo em um ambiente complexo. Vale lembrar que o bocado é a menor ação realizada pelo animal dentro do processo de forrageamento (Carvalho et al., 2009) e consiste na seleção e apreensão do alimento pelo aparelho bucal.
O conjunto de bocados, aliado ao tempo despendido pelo animal para a atividade de pastejo e a sua escolha por diferentes estruturas de plantas e espécies, consiste no comportamento ingestivo e a soma de todos estes fatores irá resultar no seu desempenho produtivo.
Portanto, a técnica de monitoramento contínuo de bocados se enquadra perfeitamente dentro da ideia de avaliar a ingestão de alimentos por ovinos, em produções a pasto, de uma maneira pouco invasiva e que pode detectar mudanças de comportamento ingestivo, em função das características da pastagem disponível.
Mas, como isso é possível, como funciona esta técnica?
A ideia básica do monitoramento é conseguir observar e registrar tudo o que o animal apreende como alimento e todos os seus comportamentos. Para isso, o avaliador deve conseguir chegar a uma distância mínima do animal para boa visualização dos bocados por ele realizados, sem que haja qualquer alteração do comportamento. É como se o avaliador fizesse parte do rebanho e se tornasse indiferente para aquele grupo de animais (Figura 1).
Figura 1. Avaliadores adaptados ao rebanho. Durante as avaliações são observados e registrados o comportamento e bocados realizados pelo animal (FAISCA, 2016).
Ao atingir esta meta, o avaliador conseguirá então observar quais as principais estruturas e espécies de plantas selecionadas e, com esta informação, poderá elaborar uma grade de códigos, ou “GRID”, para cada categoria de bocados observados (Figura 2). Estes códigos devem ser simples e de fácil memorização. O próprio avaliador deve criá-los e atribuí-los aos bocados observados. Geralmente, utilizam-se siglas curtas e que façam menção ao nome da forrageira ou à sua estrutura botânica. Como exemplo, um código “ZA” poderia representar os bocados de folhas de azevém, enquanto que um código “VA” poderia indicar bocados de folhas de aveia.
Figura 2. Exemplo de bocados observados por ovelhas e cordeiros, em pastagens mistas (FAISCA, 2016).
O estabelecimento do GRID de códigos deve ser feito com base (1) na natureza e posição das partes das plantas selecionadas; (2) nas características estruturais dos tecidos vegetais; (3) na maneira como o animal apreende a planta, se o bocado contempla uma ou mais folhas, ou estruturas diferentes; e (4) nas diferenças estimadas de valor nutricional da planta (BONNET et al., 2015). Como exemplo de um GRID de bocados, pode-se observar a Figura 3.
Figura 3. GRID de bocados observados para bovinos, em pastagens nativas no Rio Grande do Sul, conforme a altura da forragem e de acordo com as principais espécies vegetais consumidas (BONNET et al., 2015).
Dentro ainda do método, após o período de gravação, o avaliador deverá coletar amostras de forragem de acordo com os códigos registrados na avaliação que acabou de ser feita, simulando os bocados identificados. Finalmente, após seguir este passo a passo, e em posse de todos os dados coletados a campo, poderão ser calculadas:
• As taxas de bocados, considerando o número de códigos de bocados citados em cada avaliação;
• Taxas de ingestão de matéria seca, considerando o número de bocados e o peso seco de cada amostra de bocado coletado na simulação;
• Volume de bocados, conforme o peso das amostras de simulação de bocados;
• Tempo gasto em pastejo, ócio e ruminação, durante o período avaliado;
• Número de passos e, consequentemente, mudanças e buscas de novas estações alimentares;
• Atividades como consumo de água e outros alimentos.
O leitor poderá encontrar maior detalhamento desse tema em Agreil e Meuret (2004), Bonnet et al. (2013) e Bonnet et al. (2015).
Pode-se afirmar, portanto, que o método de monitoramento contínuo de bocados é uma ferramenta metodológica da pesquisa em pastagens, que pode colaborar significativamente para o avanço do conhecimento a respeito do comportamento ingestivo de ovinos, podendo trazer contribuições na elaboração de novas técnicas de manejo de forragens, nos mais diversificados ambientes e situações.
Referências bibliográficas:
AGREIL, C.; MEURET, M. An improved method for quantifying intake rate and ingestive behaviour of ruminants in diverse and variable habitats using direct observation. Small Ruminant Research. n.54, p. 99-113, 2004.
BARBOSA, C.M.P.; CARVALHO, P.C.F.; CAUDURO, G.F.; LUNARDI, R.; GONÇALVES, E.N.; DEVINCENZI, T. Componentes do Processo de Pastejo de Cordeiros em Azevém sob Diferentes Intensidades e Métodos. Archivos de Zootecnia. n.59, p. 39-50, 2010.
BARROS, C. S.; DITTRICH, J. R.; MONTEIRO, A. L. G.; PINTO, S.; WARPECHOWSKI, M. B. Técnicas para estudos de consumo de alimentos por ruminantes em pastejo: revisão. Scientia Agraria Paranaensis. v. 9, n. 2, p. 5-24, 2010.
BONNET, O. J. F.; CEZIMBRA, I. M.; TISCHLER, M. R.; AZAMBUJA, J. C. R.; MEURET, M.; CARVALHO, P. C.F. Livestock selective behaviour in natural grasslands challenges the concept of plant preference in the elaboration of a successful diet. In: MICHALK, D. L.; MILLAR, G. D.; BADGER, W. B.; BROADFOOT, K. M. Revitalising Grasslands to Sustain our Communities. Proceedings of the 22nd International Grassland Congress. Sydney, AU. 2013.
BONNET, O. J. F; MEURET, M.; TISCHLER, M. R.; CEZIMBRA, I. M.; AZAMBUJA, J. C. R; CARVALHO, P. C. F. Continuous bite monitoring: a method to assess the foraging dynamics of herbivores in natural grazing conditions. Animal Production Science. n. 55, p. 339-349, 2015.
CARVALHO, P. C. F.; TRINDADE, J. K.; MEZZALIRA, J. C.; POLI, C. H. E. C.; NABINGER, C.; GENRO, T. C. M.; GONDA, H. L. Do bocado ao pastoreio de precisão: compreendendo a interface planta-animal para explorar a multi-funcionalidade das pastagens. Revista Brasileira de Zootecnia. (supl. Especial) v. 38, p. 109-122, 2009.
Autores do artigo:
Laura Derenevicz Faisca – Aluna de Pós-Graduação do Laboratório de Produção e Pesquisa em Ovinos e Caprinos – LAPOC da Universidade Federal do Paraná – UFPR.
Mylena Taborda Piquera Peres – Aluna de Pós-Graduação do Laboratório de Produção e Pesquisa em Ovinos e Caprinos – LAPOC da Universidade Federal do Paraná – UFPR.
Ana Carolina Carvalho Neves – Aluna de Pós-Graduação do Laboratório de Produção e Pesquisa em Ovinos e Caprinos – LAPOC da Universidade Federal do Paraná – UFPR.
Rafael Batista – Aluno de Pós-Graduação do Laboratório de Produção e Pesquisa em Ovinos e Caprinos – LAPOC da Universidade Federal do Paraná – UFPR.
Alda Lúcia Gomes Monteiro – Professora da Universidade Federal do Paraná – UFPR e Coordenadora do LAPOC – UFPR.
Boletim traça características de produção de caprinos e ovinos em quatro regiões do país
Foi lançada a terceira edição do boletim Ativos Ovinos e Caprinos, produzido em parceria pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Embrapa Caprinos e Ovinos. Esta atual edição traz um levantamento das principais características da produção e ovinos e caprinos, em propriedades modais (caracterizadas com os elementos e condições mais típicos da produção em cada região) na Bahia, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
O perfil foi traçado após a realização de painéis com produtores rurais locais e técnicos nos municípios de Senhor do Bonfim (BA), Juazeiro (BA), Campo Grande (MS), Dourados (MS), Santana do Livramento (RS), Bagé (RS), Barbacena (MG) e Januária (MG), em atividade do projeto Campo Futuro, contemplando uma amostra das quatro principais regiões produtoras no país, Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Sudeste.
A caracterização mostra um perfil das propriedades, com extensão (em hectares), quantidade de animais no rebanho, raças predominantes, principais fontes de volumoso, a presença de pastagens ou forragens cultivadas e outras atividades agropecuárias presentes. Também são apresentados índices zootécnicos, baseados no levantamento de informações nos quatro estados. O trabalho foi realizado por equipe da Embrapa Caprinos e Ovinos composta pelos pesquisadores Klinger Magalhães, Juan Ferelli, Vinícius Guimarães, Caroline Barbosa e Espedito Cezário Martins e pelo analista Zenildo Holanda.
O boletim Ativos Ovinos e Caprinos de novembro também traz apontamentos sobre uso da palma forrageira nos rebanhos, com dados sobre cultivares de palma e silagem apresentados pelo analista Lucas Oliveira, da Embrapa Caprinos e Ovinos. A edição mostra ainda, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio sobre a balança comercial de ovinos e caprinos, em comparativos entre os primeiros semestres dos anos de 2015 e 2016.
O projeto Campo Futuro é executado pela CNA e Senar desde 2008, em parceria com instituições de ensino, pesquisa e sindicatos rurais, com o objetivo de gerar informações sobre commodities e cadeias produtivas. A parceria com a Embrapa Caprinos e Ovinos teve início em 2015 e começou a levantar informações juntos aos produtores rurais neste ano, gerando informações por meio do boletim Ativos Ovinos e Caprinos.
Para ler o boletim de novembro na íntegra, clique aqui
Adilson Nóbrega (MTB/CE 01269 JP) | Foto: Maíra Vergne
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Pesquisa avaliará criação de ovinos em sistemas agroflorestais em Mato Grosso
A coordenadora do Projeto de Recuperação de Pastagens Degradadas no Sistema Silvipastoril, Marilene de Moura Alves, que também é pesquisadora da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), explica que esta é uma alternativa sustentável para a agricultura familiar na criação de ovinos da raça Santa Inês.
A proposta é a implantação de sistemas agroflorestais (Saf’s) como forma de uso e manejo da terra, onde árvores são utilizadas em associação com cultivos agrícolas e com animais, numa mesma área e de forma simultânea. Durante a reunião técnica, o médico veterinário da Empaer, João Batista Vechi, falou aos produtores sobre o manejo reprodutivo e sanitário, construção das instalações, e formação e divisão de pastagens para ovinos.
O projeto será executado pela Empaer, em parceria com a Fapemat e Fundação de Amparo à Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Mato Grosso (Fundaper). Os recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat) são na ordem de R$ 47 mil para aquisição de animais, construção das instalações, recuperação das pastagens, entre outros.
Em Brasília, a Comissão Nacional de Ovinos e Caprinos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) se reuniu no final deste mês de agosto para debater as principais demandas da ovinocaprinocultura. O registro de queijo artesanal foi um dos temas em destaque no encontro, que contou com a participação de produtores rurais, especialistas do setor agropecuário, representantes de Federações da Agricultura e Pecuária dos estados, do Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário (MDSA) e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
Outro tema discutidos foi a falta de registro de queijos artesanais, tradicionalmente produzidos a partir de leite cru. Para o presidente da Comissão, Ivo Santiago, muitos produtores de queijo ovino e caprino não expandem a produção por não poderem comercializar o produto legalmente. Os representantes do Mapa, Clério Alvez e Heber Brenner, informaram que órgão está trabalhando para publicar Instrução Normativa regulamentando a agroindústria de pequeno porte.
A assistência técnica e gerencial também foi discutida na reunião. Conforme o assessor técnico da CNA, Rafael Linhares, mais de 600 produtores de ovinos e caprinos estão sendo atendidos pelos técnicos do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR). Segundo ele, com boa gestão e assistência técnica, o produtor pode aumentar a produtividade e a rentabilidade.
Outros temas de destaque no encontro, foram: diagnóstico nacional da ovinocaprinocultura, políticas públicas no semiárido voltadas à produção agropecuária e Programa Nacional de Sanidade Ovina e Caprina.



